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Haṭha Yoga: origem, significado e filosofia — a união entre corpo, energia e consciência

Quando pensamos em Yoga a primeira coisa nos vem em mente é a imagem das posturas físicas.


Mas o Yoga, em sua essência, é um caminho para reconhecer o que somos além do corpo e da mente — e, paradoxalmente, utiliza justamente o corpo e a mente como portas de entrada para essa descoberta.


O Haṭha Yoga é a vertente que mais influenciou a nossa prática moderna, mas sua origem e propósito vão muito além do tapete.


Não é apenas movimento!

É simbolismo, energia, filosofia de vida e um caminho de autoconhecimento.


Haṭha Yoga é o encontro entre duas forças fundamentais — a consciência e a energia, o sol e a lua, o estático e o dinâmico, Shiva e Shakti — que coexistem dentro de cada um de nós.


Não buscamos suprimir o corpo nem transcendê-lo pela negação, mas reconhecê-lo como veículo de expansão, clareza e liberdade.


Nesta tradição, a respiração, as posturas, a purificação, os selos energéticos, o silêncio e a meditação convergem para um único propósito: recordar a natureza ilimitada da consciência que habita cada ser.


Neste artigo, compartilho uma visão sobre a origem do Haṭha Yoga, seus símbolos e fundamentos segundo a perspectiva tântrica sobre corpo e consciência.


Shri Yantra Hatha Yoga Soma Escola de Yoga

A origem do Haṭha Yoga: quando o corpo se torna o caminho


Embora a palavra “Yoga” apareça nos Vedas, a tradição física e energética desta prática só se desenvolveu plenamente com os tântricos, por volta do século XV.


A palavra Haṭha é descrita pelo sábio Gorakṣa como a união entre as energias solar e lunar:

“A letra ha se refere ao sūrya e a letra ṭha indica candra. Quando candra e sūrya estão em equilíbrio, é chamado de Haṭha Yoga.”

Haṭha não é esforço bruto — é integração.


Segundo Flávia Venturoli Miranda, em Origens do Haṭha Yoga, Śakti (energia) e Śiva (consciência) simbolizam a unidade buscada pela tradição tântrica:

“Para isso, o tantra não exclui nenhuma possibilidade (nem sacra nem profana) para essa realização, pois não há o profano — apenas o sagrado.”

Não há nada fora do divino.

Não há separação.

Como diz o Svacchandatantra (IV-314.24):

“Não existe nada que não seja Śiva.”

Aqui, Śiva não é um deus externo — Śiva é um nome para a Consciência. É o símbolo da presença que permeia tudo e todos.


A tradição mítica: o nascimento do Haṭha Yoga


A origem do Haṭha é atribuída a uma história que conta a lenda de um pescador que, ao ser engolido por um grande peixe, permanece vivo em seu ventre e, desse lugar inesperado, escuta Śiva ensinando à sua consorte Pārvatī os segredos do Haṭha Yoga.


Matsyendra, o pescador, então ao "sair do peixe”, não é mais o mesmo homem. Transformado pela revelação do Yoga — ele retorna como Matsyendranātha, o primeiro mestre da linhagem Nātha. Aquele que ouviu, assimilou e transmitiu o conhecimento do Hatha Yoga.


E mesmo se voce não acredita nesta historia, a lição da lenda é: o conhecimento surge quando há receptividade.


A maturidade espiritual nasce da prática, do silêncio, da entrega e da capacidade de escutar — mesmo “no ventre do desconhecido”.


Linha do tempo (referencial e variável entre linhagens)


  • c. 900 d.C. — Matsyendranātha: início da linhagem Nātha

  • 900–1200 d.C. — Gorākṣanātha: sistematização do Haṭha e da escola Kaula

  • c. 1500 d.C. — Svātmārāma: compilação do Haṭha Yoga Pradīpikā


Apesar das datas variarem conforme as fontes, a essência permanece: o Haṭha nasce na tradição tântrica e floresce como caminho experiencial, prático e transformador.

“O corpo deixa de ser visto como a causa do sofrimento e passa a ser veículo para a transcendência.” Pedro Kupfer

O Tantra rompeu com uma visão ascética que via o corpo como aprisionamento, afirmando que não existe espiritualidade que negue a vida.

“Sem o corpo, como realizar o supremo objetivo? Depois de adquirir uma morada corpórea, a pessoa deve realizar ações meritórias.” Kulārṇava Tantra I.18

Aqui, o corpo não é obstáculo — é templo, é caminho, é laboratório de consciência.


No Haṭha Yoga, cada respiração, cada postura, cada selo energético, cada momento de imobilidade e de presença se tornam oportunidades para o reconhecimento do Ser.


Não buscamos experiências extraordinárias — mas também não as negamos. Tudo é parte do caminho.


O corpo como portal para o despertar


A base do Haṭha Yoga é a experiência direta — não o dogma.


“O que está aqui, está lá; o que está lá, está igualmente aqui”.

Kaṭha Upaniṣad II:1,10


“O que está aqui, está em toda parte. O que não está aqui, não está em parte alguma”.

Viśvasāra Tantra


Para o Haṭha Yoga, o microcosmo e o macrocosmo são reflexos um do outro.


O corpo é o microcosmo — expressão individual do todo, o macrocosmo. Por isso, ele se torna campo de estudo e prática. Fazemos do tapete um laboratório vivo onde observamos mente, corpo, energia e presença.


Aprendemos a olhar para nós mesmos com honestidade e gentileza, para depois levar essa clareza para a vida fora da prática.


A proposta do yoga é que a prática nos conduza a um estado — o estado de yoga, de consciência, de presença. A cada postura, a cada respiração, temos a oportunidade de lembrar da unidade: somos parte do todo, nada nos falta, tudo acontece no tempo certo

e o único lugar onde a vida realmente acontece é no momento presente.


E o mais bonito é que, enquanto esse propósito profundo do Yoga vai acontecendo dentro de nós, o corpo físico e a mente também amadurecem. Ganhamos força, estabilidade, vitalidade, clareza e tranquilidade.


Svātmārāma, autor de um dos principais manuais de Haṭha Yoga, descreve os sinais do caminho:


“Quando se aperfeiçoa o Haṭha Yoga, aparecem os seguintes sinais: agilidade física, brilho no rosto, manifestação da vibração sutil interior (nāḍa), olhar penetrante e claro, saúde, controle do fluido seminal (bindu), aumento do fogo digestivo e total purificação das nāḍīs”.  Haṭha Yoga Pradīpikā, II:78.


O corpo reflete o que a prática desperta por dentro.


Śiva e Śakti: não como mitos — mas como forças vivas em nós


Na visão do Haṭha Yoga, nós somos formados por diferentes camadas (kośas), que vão desde o corpo físico até a essência mais sutil da consciência.


Entre essas camadas está o prāṇamayakośa, o corpo energético, onde circula o prāṇa — a força vital que sustenta a vida.


Os textos tradicionais descrevem cerca de 72 mil nāḍīs, canais sutis que conduzem essa energia. Entre eles, três são fundamentais para a prática do Haṭha Yoga:


  • Iḍā nāḍī — energia lunar, introvertida, receptiva

  • Piṅgalā nāḍī — energia solar, ativa, dinâmica

  • Suṣumnā nāḍī — canal central, caminho da consciência desperta


Enquanto Iḍā e Piṅgalā representam os polos da nossa experiência — o frio e o quente, a quietude e o movimento, o mental e o vital — o suṣumnā representa o eixo do equilíbrio e da transcendência.


Quando essas energias solares e lunares se equilibram, a energia vital naturalmente se dirige ao canal central.


É isso que a tradição chama de despertar da kuṇḍalinī, não como fenômeno místico externo, mas como uma expansão da percepção e da consciência.


Nesse processo simbólico, falamos da união de Śiva e Śakti:


  • Śiva — a consciência pura, silenciosa, imutável

  • Śakti — a potência, a energia criativa, o movimento que sustenta a vida


Não são personagens distantes. São princípios internos, duas dimensões da nossa própria experiência.


“Não existe Śiva sem Śakti, nem Śakti sem Śiva. Śiva sem Śakti é śava — um corpo inerte.”


Śiva é o “ver”,

Śakti é o “viver”.


Quando essas duas inteligências se reconhecem como uma só, surge o estado de samādhi, a absorção profunda, o retorno ao centro, o reconhecimento da unidade.


Haṭha Yoga é o caminho dessa integração.


Não buscamos reprimir o corpo nem negar o mundo, mas refinar a energia, estabilizar a mente e abrir espaço para que a consciência se revele como ela já é.


Os métodos tradicionais do Haṭha Yoga


Os textos clássicos do Haṭha Yoga apresentam caminhos estruturados de prática e aperfeiçoamento, descrevendo fases que envolvem corpo, energia e mente.


O Haṭha Yoga Pradīpikā organiza o caminho em quatro membros, enquanto a Gheraṇḍa Saṁhitā apresenta o Saptāṅga Yoga, o caminho dos sete membros — entendido como um complemento e aprofundamento das práticas descritas no Pradīpikā.


Além desses tratados, a tradição tântrica também se apoia em outros textos essenciais, como o Śiva Sūtra (77 aforismos), entre outros ensinamentos clássicos que fundamentam a visão não-dual e energética do Yoga.


Essas abordagens não se contradizem — elas se enriquecem mutuamente.


Os quatro membros da Haṭha Yoga Pradīpikā


  1. Disciplina e āsana

    Princípios de conduta e posturas que estabilizam o corpo e purificam o sistema energético.

  2. Prāṇāyāma e ṣaṭkarma

    Expansão e direção do prāṇa e métodos de purificação para desobstrução dos canais sutis (nāḍīs).

  3. Mudrās e bandhas

    Selos energéticos (mudrās) e ativações internas (bandhas) que despertam e direcionam a energia vital.

  4. Nāda, meditação e absorção

    Percepção do som interno (nāda) e o estado de absorção (lāyā), reconhecendo a unidade entre Śakti e Śiva — samādhi.


“Samādhi é a compreensão da própria natureza e as diferentes

experiências da profunda absorção.” Pedro Kupfer


As principais práticas do Haṭha Yoga


Haṭha Yoga é um sistema completo. Suas práticas fundamentais incluem:


  • Āsana — Posturas | Preparam o corpo e o sistema nervoso para ter estabilidade, energia e imobilidade meditativa.

  • Prāṇāyāma — Respiração e força vital | Expandem e conduzem prāṇa, equilibrando os canais energéticos (nāḍīs).

  • Bandha — Chaves energéticas | Ativações internas que elevam e concentram a energia vital.

  • Mudrā — Selos energéticos | Canalizam a energia para estados elevados de consciência.

  • Śatkarmas — Purificações | Métodos de limpeza e desintoxicação que liberam a energia e fortalecem o corpo.

  • Dhyāna — Meditação | Silêncio, presença e reconhecimento da consciência.

  • Mantra - Sons de Poder | Vibração sonora que purifica a mente e desperta clareza interior.

  • Yantra — Geometria sagrada | Representações simbólicas e geométricas da consciência, usadas como objeto de concentração e contemplação.


Ao nos familiarizarmos com essas práticas, entendemos que o Haṭha Yoga vai muito além do físico. É um caminho gradual de equilíbrio e presença, onde usamos o corpo, a respiração e a energia para aquietar a mente e despertar uma sensação real de paz e completude. Cada prática se torna um passo no retorno ao nosso centro, onde já existe silêncio e plenitude.


Conclusão


Haṭha Yoga é mais do que posturas. É uma ciência antiga, poética, energética e mística que reconhece o corpo como templo e campo de transcendência.


Haṭha é um caminho de experiência, silêncio e integração. Ao equilibrarmos o “sol” e a “lua”, Shiva e Shakti, força e entrega, concentração e expansão….. voltamos para casa.


Hariḥ Oṁ

Paty Abreu

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