Prātaḥ Smaraṇam: a meditação sobre quem realmente somos
- por Patricia de Abreu

- 11 de jul.
- 5 min de leitura
Quando pensamos em meditação, geralmente imaginamos alguém concentrado em uma imagem, em um mantra ou em algum objeto de contemplação, e em quase todas essas formas de meditação ainda existe uma divisão entre aquele que medita e aquilo sobre o qual se medita.
Podemos meditar em uma divindade, em uma forma sagrada ou em um símbolo que represente algo maior do que nós mesmos. Quando essa meditação possui um caráter devocional, ela é chamada de upāsana, ou adoração mental.
Essa forma de meditação é extremamente valiosa pois ao voltarmos a mente para o Todo, cultivamos concentração, refinamento interior e, pouco a pouco, diminuímos as impurezas emocionais que perturbam a nossa paz.
Mas existe uma forma ainda mais profunda de meditação, uma meditação em que não há separação entre o meditador e o objeto da meditação, uma meditação em que aquilo que buscamos conhecer é o próprio Ser.
É essa a essência do Prātaḥ Smaraṇam, a meditação ao amanhecer.

Por que precisamos preparar a mente?
Sempre que a mente é dominada por impulsos como raiva, ciúme, apego ou ganância, torna-se difícil permanecer concentrado. Quando estamos magoados ou perturbados, a mente perde naturalmente a capacidade de se manter estável e por isso, a tradição explica que o primeiro passo da vida espiritual é a purificação da mente.
Essa purificação acontece por meio do Karma Yoga, a atitude de oferecer as nossas ações ao Todo e receber os seus resultados com maturidade e aceitação. Pouco a pouco, os gostos e aversões excessivos vão perdendo a força e a mente se torna mais tranquila e equilibrada.
A partir dessa base, torna-se possível aprofundar a prática de meditação.
Da ação à contemplação
Após o Karma Yoga, surge o segundo estágio: a upāsana, a adoração mental. Nesse estágio, a mente aprende a permanecer em um único ponto até que a concentração se desenvolva e a agitação diminua.
Com o passar do tempo, a mente se torna cada vez mais refinada, até adquirir a capacidade de recolher-se das inúmeras preocupações externas. Neste momente surge a possibilidade da mais elevada forma de meditação: a meditação sobre quem somos.
No Vedānta, essa contemplação é chamada de Nididhyāsanam e são descritas três etapas fundamentais:
1.Śravaṇam - Ouvir os ensinamentos das escrituras através de um professor.
2.Mananam - Refletir sobre aquilo que foi ouvido, esclarecendo dúvidas e assimilando o conhecimento.
3,Nididhyāsanam - Contemplar repetidamente a verdade revelada até que ela deixe de ser apenas um conhecimento intelectual e passe a ser uma realidade viva em nossa experiência.
Saber não é o mesmo que viver
Podemos compreender intelectualmente que somos completos, livres e da natureza da consciência, mas apesar desse entendimento, continuamos a nos identificar com o corpo, com a mente, com as emoções e com as inúmeras histórias que carregamos.
Por hábito, continuamos a viver como indivíduos limitados, mesmo tendo ouvido que nossa natureza é ilimitada, por isso, o conhecimento precisa ser assimilado.
É necessário reconhecer essa verdade em meio à vida, sendo assim um processo de amadurecimento interior e de realização da natureza da alma por meio da prática.
O erro do hábito
Swami Dayananda costuma ilustrar isso com a história de um mendigo que ganha na loteria e se torna milionário e embora ele possua uma nova realidade, seus antigos hábitos continuam presentes. Ele ainda estende a mão para pedir comida ou recolhe objetos abandonados na rua.
Sua condição mudou, mas a mente ainda não acompanhou essa transformação.
Da mesma forma, podemos ter compreendido os ensinamentos do Vedānta e, ainda assim, continuar reagindo aos desafios da vida a partir dos velhos padrões de identificação e é justamente para dissolver esses hábitos que existe o Nididhyāsanam.
Os muitos papéis que desempenhamos
Ao longo do dia, desempenhamos inúmeros papéis, somos filhos, pais, mães, professores, profissionais, amigos, alunos ou parceiros. Cada situação desperta uma identidade diferente assim como um ator veste diferentes figurinos para representar diversos personagens, nós também transitamos entre inúmeros papéis.
Mas quem é aquele que interpreta todos esses personagens?
Quem somos quando nenhum papel está sendo desempenhado?
Quem somos quando não estamos relacionados com nada?
Essa é a pergunta fundamental…
O ator e o personagem
Um ator pode representar um rei, um mendigo ou um ministro mas ele não é nenhum desses personagens, ele está presente em todos eles, mas permanece livre de cada um deles.
Da mesma maneira, posso ser pai, filha, professora ou amiga, justamente porque sou diferente de todos esses papéis, mas quando esquecemos essa distinção, os problemas dos personagens tornam-se os nossos problemas.
A ideia do ensinamento é que possamos conhecer nossa verdadeira identidade para além de todos os papéis que representamos, pois assim os acontecimentos da vida permanecem no nível dos papéis e deixam de atingir aquilo que realmente somos.
Assim, nós continuamos vivendo, trabalhando, amando e cumprindo nossas responsabilidades, MAS com maior liberdade interior.
Por que meditar ao amanhecer?
Prātaḥ significa amanhecer. Após uma noite de descanso, a mente encontra-se naturalmente mais tranquila e predominantemente sāttvica, ou seja, mais serena, contemplativa e receptiva.
À medida que o dia avança, a atividade aumenta e a mente se torna mais agitada, por isso, as primeiras horas da manhã são consideradas especialmente favoráveis para a contemplação.
Antes que os inúmeros compromissos do dia ocupem a mente, existe um momento precioso de silêncio, um momento em que podemos deixar de lado todos os papéis e simplesmente voltar a nossa atenção para aquilo que sempre esteve presente, e neste momento podemos recordar aquilo que nunca deixamos de ser.
Prātaḥ Smaraṇam
Tradução Pedro Kupfer
Leia mais aqui: https://yoga.pro.br/pratahsmaranam-o-mantra-matinal/
oṁ prātaḥ smarāmi hṛdi saṁsphuradātmatattvaṁsaccitsukhaṁ paramahaṁsagatiṁ turīyam |yatsvapnajāgarasuṣuptamavaiti nityaṁtadbrahma niṣkalamahaṁ na ca bhūtasaṅghaḥ || 1 ||
Oṁ. Nos primeiros momentos do meu dia, medito na Consciência que brilha eternamente na minha inteligência. Medito Naquele que é Existência, Consciência, Plenitude, que é buscado por todos. Medito sobre a Consciência que brilha constantemente na vigília, no sono e no sono profundo. Ela é o ilimitado Brahman , que sou eu, pois eu não sou este conjunto de elementos materiais. || 1 ||
prātarbhajāmi manasā vacasāmagamyaṁvāco vibhānti nikhilā yadanugraheṇa |yaṁ netinetivacanairnigamā avocuḥtaṁ devadevamajamacyutamāhuragryam || 2 ||
De manhã, medito no Eterno, naquele que não cabe em palavras, naquele que manifesta todas as palavras através de suas bênçãos, naquele que os Vedas descrevem como neti, neti! (“nem isto, nem aquilo“). Naquele que é chamado o Primevo, o Senhor dos devas, o Não-nascido, o Imutável. || 2 ||
prātarnamāmi tamasaḥ paramarkavarṇaṁpūrṇaṁ sanātanapadaṁ puruṣottamākhyam |yasminnidaṁ jagadaśeṣamaśeṣamūrttaurajjvāṁ bhujaṅgama iva pratibhāsitaṁ vai || 3 ||
Cedo, medito no Ilimitado, naquele que está mais além da escuridão e que brilha como o Sol, aquele que é a base imutável, e que é conhecido como o Supremo, dentro de quem o Universo se revela em formas limitadas, assim como a serpente aparenta ser a corda. || 3 ||
Mais do que uma oração matinal
Ao recitarmos o Prātaḥ Smaraṇam estamos apenas recordando aquilo que sempre esteve presente.
Antes que o mundo desperte completamente e que os inúmeros papéis do dia voltem a ocupar a mente, existe um instante de silêncio em que podemos reconhecer a presença que permanece a mesma em todas as experiências.
Essa é a proposta dessa contemplação.
Lembrar que não somos apenas o corpo que envelhece, a mente que oscila ou as circunstâncias que mudam, somos a Consciência que está em todos esses momentos que aparecem e desaparecem.
Quando essa lembrança passa a acompanhar a vida cotidiana, pouco a pouco deixamos de viver apenas como personagens e começamos a reconhecer o ator que sempre esteve presente por trás de todos eles.
Isso é liberdade.
Hariḥ Oṁ. 🤍



