top of page

Entre o esforço e a graça: o que o Yoga realmente procura despertar

Quando ouvimos palavras como Iḍā, Piṅgalā, Suṣumnā ou Kuṇḍalinī, é comum imaginarmos algo distante, misterioso ou até mesmo esotérico. Entretanto, os antigos yogis não consideram este tema uma fantasia pois acreditam que estes conceitos pertencem ao campo da experiência. O Yoga tem como objetivo investigar a natureza da vida e da consciência por meio da observação direta.


Segundo a tradição, o prāṇa, a energia vital, circula pelo corpo através de inúmeros canais sutis chamados nāḍīs. Entre eles, três são considerados fundamentais. Piṅgalā, conhecida como a nāḍī solar, representa a atividade, o calor, a expansão e tudo aquilo que nos impulsiona para a ação. Iḍā, a nāḍī lunar, representa o frescor, o repouso, a receptividade e a capacidade de regeneração.


A vida se sustenta do equilíbrio desses polos, assim como existe dia e noite, verão e inverno, inspiração e expiração, também em nosso organismo existe uma "dança" contínua entre ação e repouso.


Soma Escola de Yoga

É impossível compreender o Yoga sem compreender a importância dos opostos complementares. A filosofia chinesa expressou essa mesma ideia através do ensinamento do Yin e Yang enquanto a tradição do Yoga utilizou a linguagem do Sol e da Lua. Em ambos os casos, o ensinamento é o mesmo: a harmonia surge da capacidade de integrar e equilibrar os dois polos.


Quando as forças solar e lunar entram em equilíbrio Suṣumnā, o canal central, torna-se ativo. É por esse canal que flui a Kuṇḍalinī, frequentemente descrita como uma energia latente ou adormecida. Entretanto, mais do que um canal energético localizado em alguma parte específica do corpo, Suṣumnā representa um estado de integração; é a experiência de uma inteligência que que está para além dos extremos, uma consciência que deixa de oscilar entre excesso de atividade e excesso de passividade.


Nesse sentido, a Kuṇḍalinī é algo que naturalmente se revela quando corpo, mente e sentidos encontram harmonia. A tradição descreve esse despertar como o florescimento de uma força que sempre esteve presente, mas que permanecia encoberta pelos desequilíbrios e pelas constantes oscilações da mente.


Iyengar no livro “A árvore do Yoga" faz uma observação importante nos lembrando que essa compreensão pode ser interpretada em diferentes níveis pois existe um aspecto fisiológico, um aspecto psicológico e um aspecto espiritual.


Em um nível mais psicológico, Iyengar explica que Patañjali define Yoga como "citta-vṛtti-nirodhaḥ", tradicionalmente traduzido como a restrição das flutuações da consciência. À primeira vista, essa definição pode dar a impressão de que o objetivo do Yoga é eliminar os pensamentos ou produzir uma mente vazia, mas essa não é a intenção. A consciência em si não é um problema; o que constantemente muda são as formas que ela assume.


Pensamentos, emoções, memórias e desejos surgem e desaparecem o tempo todo, assim, o propósito do Yoga é reconhecer que os movimentos da consciência são diferentes daquilo que ela é em sua essência.


Os antigos mestres utilizavam exemplos simples como o da argila que pode assumir a forma de um vaso, de um prato ou de uma estátua, ou ainda o ouro pode tornar-se uma pulseira, um anel ou um colar. As formas mudam, mas a matéria-prima permanece a mesma. Da mesma maneira, pensamentos, emoções, memórias e desejos são apenas formas que a consciência assume, confundimo-nos com essas formas e acabamos esquecendo a essência que lhes dá sustentação.


Iyengar ensina que a mente não possui luz própria assim como a Lua apenas reflete a luz do Sol, a mente recebe sua luminosidade de algo mais profundo. Os textos chamam essa realidade de Ātma, o Si-mesmo, a presença que testemunha todas as experiências. Enquanto a mente acredita ser o centro de tudo, permanece agitada, dividida e constantemente em busca de satisfação, mas quando reconhece que não é a fonte da luz, torna-se receptiva, silenciosa e disponível. É justamente nesse silêncio que o florescimento dessa nova energia, chamada de Kuṇḍalinī acontece. 


Entretanto, talvez a parte mais bonita desse ensinamento seja a compreensão de que nenhuma realização espiritual pode ser produzida pela força do ego. A Haṭha Yoga Pradīpikā afirma que o despertar da Kuṇḍalinī depende da graça e essa afirmação pode parecer desconfortável para a nossa mente moderna, acostumada a acreditar que tudo pode ser conquistado pelo esforço. 


A tradição nunca negou a importância da disciplina, mas  ela reconheceu que existem dimensões da existência que não podem ser fabricadas.


Podemos preparar o corpo, podemos estabilizar a mente, podemos cultivar discernimento e maturidade, mas não podemos obrigar uma flor a desabrochar pois existe algo na vida que sempre permanecerá além do nosso controle.


Bhoga e apavarga, a jornada do Yoga


Bhoga é a experiência de estar preso à teia do mundo, de viver identificado com os desejos, medos, sucessos e fracassos. É permanecer constantemente condicionado pelos seus resultados. Apavarga, por outro lado, representa a libertação, é a passagem da dependência para a liberdade, da identificação para a consciência, da agitação para a paz.


Toda a jornada do Yoga pode ser compreendida como essa transição. Saímos pouco a pouco de uma vida governada pelas circunstâncias e caminhamos em direção a uma vida governada pela sabedoria. As emoções vão continuar nos acompanhando mas já não seremos mais completamente arrastados por elas.


A prática deve ser diária, é ela que prepara o terremo e com a "casa em ordem" podemos receber a graça divina, ou também chamada de iluminação. O agricultor não produz a chuva, mas prepara a terra para recebê-la, da mesma maneira, não produzimos a graça, mas podemos tornar-nos receptivos a ela.


Devemos fazer tudo aquilo que está ao nosso alcance e, ao mesmo tempo, reconhecer que aquilo que há de mais precioso não pode ser possuído. A paz não pode ser forçada, o amor não pode ser fabricado e a sabedoria não pode ser conquistada como um objeto, mas tudo isso pode florescer.


E talvez floresçam justamente quando o esforço e a entrega, o Sol e a Lua, Piṅgalā e Iḍā, finalmente encontram o seu equilíbrio.


"Se a graça vier, continuem sua prática e não permitam que ela desapareça." BKS Iyengar 


Para aprofundar estes ensinamentos na prática conheça nossa escola de Yoga.



Hariḥ Oṁ 🤍

bottom of page