Vida dispersa
- por Patricia de Abreu

- 27 de mar.
- 5 min de leitura
Eu sei que você já percebeu que estamos mudando o tempo todo a forma como vivemos hoje, mas será que estamos realmente nos transformando para melhor ou apenas vivendo cada vez mais online, desconectadas de nós mesmas e do meio ao nosso redor?
Quantas vezes você já sentou para ler um livro e, poucos minutos depois, sentiu o impulso de pegar o celular, e pegou?
Isso acontece comigo o tempo todo. E pior, às vezes abrimos o celular com uma intenção simples, como ver a agenda, e sem perceber já estamos no Instagram, rolando o feed automaticamente, como se fôssemos puxadas para fora sem escolha.
Abrimos o Instagram “só por um instante”… e outro instante… e mais outro, e quando percebemos já se passaram 20 minutos. Ficamos hipnotizadas, para fora, distantes de nós mesmas. Não que o Instagram seja um problema em si, o ponto é o excesso, como quase tudo na vida. Existe uma ideia que eu gosto muito que fala que não é a substância que define se algo é remédio ou veneno, mas a dose. E hoje, o que vemos, na maior parte do tempo, é excesso.
Mas talvez o mais desafiador nem seja apenas o uso, e sim a oscilação. Entre a necessidade de postar tudo, a ponto de não viver plenamente a experiência porque já estamos pensando em compartilhar, e o outro extremo de querer sair completamente das redes porque sentimos que não conseguimos nos regular. Eu mesma já pensei muitas vezes em desaparecer por um tempo, só para observar como o meu cérebro reagiria, mas não posso, eu trabalho com isso. E então surge uma pergunta desconfortável: será que, para produzir conteúdo, eu preciso prender ainda mais a atenção das pessoas? Ou existe uma forma de comunicar sem alimentar ainda mais essa dispersão?
Falamos muito de FOMO, fear of missing out, o medo de estar perdendo algo, mas talvez estejamos precisando cultivar o contrário: JOMO, joy of missing out, (essa foi uma ideia que peguei no instagram @awakentheinner, um IG que costumo traduzir para criar os memes que faço as vezes), que seria a alegria de não estar em tudo, de não consumir tudo, de poder voltar para si.
Porque quanto mais estamos online, muitas vezes mais nos afastamos de nós mesmas. E me diz: como duas horas de Yoga por semana podem competir com horas e horas de estímulos digitais todos os dias?
Sem atenção, seguimos distraídas.
E a atenção, que é um dos recursos mais valiosos que temos, está sendo constantemente puxada para fora. Quando a atenção se fragmenta, a experiência da vida também se fragmenta, e deixamos de estar completamente presentes em qualquer coisa, seja no descanso, na leitura, nas relações, ou mesmo na prática. Esse estado de dispersão não é apenas um hábito moderno, é um padrão mental que, aos poucos, vai nos tornando mais reativas, mais impulsivas e menos conscientes.

Problemas modernos — soluções ancestrais.
Dentro do caminho do Yoga, existe um ensinamento essencial chamado pratyāhāra, o recolhimento dos sentidos. Pratyāhāra não significa negar o mundo, nem se isolar dele, mas sim recuperar algo que fomos perdendo aos poucos: a capacidade de escolher para onde a nossa atenção vai.
Em vez de sermos constantemente puxadas pelos estímulos externos, começamos a cultivar a habilidade de permanecer, de sustentar a atenção e, com isso, ganhamos autonomia para não reagir automaticamente a cada impulso que surge.
Pratyāhāra é, sim, um estado, um estado em que nos recolhemos e direcionamos a atenção para dentro, em direção à contemplação do ser, mas ele também é um resultado da prática, uma passagem entre uma vida vivida no piloto automático e uma vida vivida com mais presença.
E talvez o mais importante de compreender seja que pratyāhāra não começa em estados profundos de meditação, como muitas vezes imaginamos. Ele começa no cotidiano, em gestos simples que sustentam a prática. Porque, se a mente está dispersa ao longo do dia, ela também estará dispersa quando você se sentar para meditar.
Por isso, antes de buscar estados meditativos mais profundos, é preciso treinar a atenção na vida diária, observando com mais clareza como nos distraímos nas ações mais simples e aparentemente insignificantes.
Pratyāhāra também nos convida a refinar aquilo que consumimos através dos sentidos, a perceber o tipo de estímulo que escolhemos alimentar continuamente.
O que você oferece, todos os dias, aos seus olhos, aos seus ouvidos, à sua mente? A qualidade desses estímulos molda diretamente a qualidade da sua atenção e, consequentemente, a forma como você experiencia a própria vida.
Talvez você possa começar apenas observando: quantas vezes, ao longo do dia, você pega o celular sem uma real intenção? Quantas vezes interrompe uma tarefa para verificar algo que poderia esperar? Quantas vezes consome conteúdo sem nem perceber o que acabou de ver?
Esses pequenos movimentos revelam o quanto a mente já está condicionada à dispersão, ao estímulo constante, à busca por algo que está sempre fora.
Pratyāhāra, nesse contexto, começa exatamente agora, quando criamos pequenas pausas dentro desses automatismos. Quando, ao invés de seguir o impulso, escolhemos parar, esperar e permanecer.
Quando foi a última vez que você escolheu simplesmente estar, sem fazer nada, como em uma fila de banco, sem recorrer ao celular apenas para “preencher” o tempo?
E se você reconhece tudo isso… por que continua se deixando levar?
O seu sistema nervoso precisa ser regulado, mas isso só acontece quando reduzimos a necessidade constante de estímulo e devolvemos à mente algo essencial: a capacidade de se estabilizar. E é a partir dessa estabilidade que todo o caminho interno do Yoga se torna possível.
O descanso que não estamos tendo: a importância do sono
Mas existe um outro ponto essencial nessa conversa e que muitas vezes passa despercebido: o sono.
Vivemos em um estado de estímulo constante, e isso não termina quando o dia acaba. Levamos o celular para a cama, dormimos depois de consumir informação, adormecemos com a mente agitada, ainda processando tudo o que vimos, ouvimos e absorvemos ao longo do dia. O corpo até deita, mas a mente continua ativa e o resultado disso é um descanso superficial.
Sem descanso profundo, não há clareza mental, não há estabilidade emocional, não há atenção sustentada. A mente permanece reativa, sensível demais aos estímulos, incapaz de se estabilizar.
Por isso, a higiene do sono não é um luxo é uma base para viver bem.
Criar um ambiente mais escuro, mais silencioso, reduzir o uso de telas antes de dormir, diminuir gradualmente os estímulos à noite e respeitar horários mais regulares são coisas simples, mas profundamente reguladoras. Eles sinalizam ao corpo que é hora de desacelerar e quando o corpo desacelera, a mente começa, pouco a pouco, a acompanhar esse movimento.
Nesse contexto, práticas como o Yoga Nidrā se tornam extremamente potentes, porque muitas vezes já não sabemos mais relaxar. Mesmo quando estamos deitados, continuamos pensando, planejando, reagindo, como se não conseguíssemos desligar.
O Yoga Nidrā nos ensina a entrar em um estado entre o sono e a vigília, onde o corpo descansa profundamente, mas a consciência permanece presente. É, na prática, através da técnica, que os sentidos começam a se recolher, a mente desacelera, a atenção deixa de ser constantemente puxada para fora e, pouco a pouco, voltamos a habitar o nosso próprio corpo.
Quando essa dispersão começa a diminuir, algo muito importante se torna possível: dhāraṇā, a capacidade de sustentar a atenção em um único ponto; dhyāna, a continuidade dessa atenção sem interrupções; e samādhi, o estado em que não há mais separação entre quem observa e aquilo que é observado. Esse processo, chamado de samyama, não acontece por esforço forçado, mas surge naturalmente quando a mente deixa de ser constantemente estimulada.
Quando há menos dispersão, há mais presença.
Quando há mais presença, há mais clareza.
E, aos poucos, a prática deixa de ser algo restrito ao tapete e passa a transformar a forma como vivemos.
Com honestidade, talvez não seja sobre mudar tudo de uma vez, mas sobre começar a observar com mais cuidado para onde a sua atenção está indo ao longo do dia, e, o mais importante: você está escolhendo… ou está sendo levada?
Hariḥ Oṁ
Paty Abreu



